O futuro é uma ilusão

Marcus Carvalho Fonseca          

Texto disponibilizado em fev/2022. Se quiser baixar em pdf, clique aqui.

Os conteúdos apresentados neste texto são apenas informativos e não se constituem em artigo técnico científico. Seu objetivo, junto com os demais textos disponíveis aqui no website é, por meio de uma abordagem introdutória de temas pouco discutidos entre nós, contribuir para que possamos entender com mais clareza o contexto da doença de Parkinson (DP). É importante ressaltar que não sou profissional da área da saúde. Portanto, não utilize de forma alguma nenhuma parte do conteúdo para automedicação. Trata-se de um conjunto de informações obtidas pela experiência e conhecimento adquiridos ao longo de anos com Parkinson e em pesquisas na internet. Ou seja, são textos escritos por um leigo para leigos.

Antes de tudo, quero esclarecer que não se trata da análise ou referência à obra “O futuro de uma ilusão”, livro escrito em 1927 por Sigmund Freud. A abordagem deste texto é voltada para a questão de se viver preso às fantasias do futuro e como isso pode se transformar em problemas para nossa saúde mental e qualidade de vida.

Estudar e falar sobre o futuro sempre foi um tema apaixonante para mim. Não só pelas técnicas de elaboração de cenários, muito utilizadas no contexto dos programas de planejamento estratégico, como também pelos estudos relacionados à inovação e desenvolvimento tecnológico.

No ano de 2014 essa fase de especulação sobre o futuro com o olhar crítico do curioso e estudioso de suas possibilidades, deu lugar a uma nova perspectiva com a chegada do diagnóstico da DP. De repente o futuro perdeu aquele fascínio do estudioso e se transformou numa imensa massa cinzenta repleta de incertezas e ameaças. Foi um tempo de descobertas até perceber que é tudo uma ilusão e nada está sob controle.

O futuro não existe, é uma ilusão, um tempo imaginário.

Como a ideia de que o que acontece no futuro é resultado de nossas decisões e atitudes no passado e no presente, tem-se a impressão de que há um determinismo neste processo, como se eu estivesse de alguma forma garantindo a realização de minhas expectativas. Só que não é bem assim, já que as relações de causa e efeito de nossas ações estão sujeitas a influências de uma infinidade de outras ações em outros contextos. O mundo é uma rede e são infinitas suas conexões. Esse é um assunto fascinante que eu recomendo como leitura paralela, começando pelo livro A Teia da Vida, de Fritjof Capra (Editora Cultrix, 1996); tenho certeza de que você vai gostar.

O futuro é uma ilusão criada pela nossa mente, que muitas vezes atribui sensações de realidade, levando-nos a padrões de comportamento que podem chegar a uma patologia, como a ansiedade, por exemplo.

A ansiedade é uma reação de antecipação de uma ameaça futura que experimentamos diante de algumas situações que variam de indivíduo para indivíduo, adversas para alguns e normais para outros, tais como a realização de exames de saúde, perda do emprego, viagem longa, mudança de residência, entre outras. Ocorre que alguns indivíduos reagem de forma mais intensa e passam a demonstrar cada vez mais alguns sintomas patológicos que comprometem sua saúde.

A ansiedade é ligada à preocupação, ao medo incontrolável e suas formas mais comuns de manifestação associadas a DP são o Transtorno de Ansiedade Generalizada (nervosismo e pensamentos recorrentes de preocupação excessiva e medo), a Ansiedade Social (medo de estar em ambientes com outras pessoas e ser avaliado e rejeitado pelos seus sintomas motores) e o Transtorno Obsessivo Compulsivo (pensamentos persistentes e indesejados – obsessões, e necessidade urgente de se envolver em certas situações para tentar controlar os problemas).

Um sintoma muito citado por companheiros de grupos de apoio é o ataque de pânico, que é o medo incontrolável de não conseguir escapar de uma determinada situação. O medo é uma resposta da mente à percepção de um perigo iminente, mas que não é necessariamente o gatilho que vai provocar o ataque de pânico.

Uma atenção especial deve ser considerada se você é daqueles que veem o futuro como um sofrimento antecipado que é uma das armadilhas de nossas mentes, fazendo com que nossa maneira de enxergar a realidade seja controlada pelos nossos medos. O sofrimento por antecipação parece revelar uma certa vontade de reproduzir situações ruins vividas no passado. Esse medo paralisa e nos impede de viver o presente na sua plenitude; o tempo passa e o seu presente está sempre sendo adiado.

Todos nós já vivemos um sentimento de medo de que algo ruim possa acontecer na nossa vida; situações em que pensamentos intrusivos e automáticos não nos dão trégua gerando angústia e ansiedade. Por ser uma doença ainda sem cura, crônica e degenerativa, sem causa básica conhecida, a DP traz uma série de incertezas que mudam nossas percepções sobre o futuro e questionam algumas verdades que já não se sustentam.

Ahh, se eu soubesse! Quantas vezes ouvi essa exclamação de diferentes pessoas ao relatarem suas crises, imaginando que se soubessem mais sobre o futuro, suas escolhas seriam diferentes. Pura ilusão! As pessoas precisam entender que tudo muda, é transitório e que a impermanência precisa ser mais bem compreendida. É claro que seria muito diferente se eu recebesse hoje o diagnóstico da DP do que foi há sete anos; o contexto mudou, as relações mudaram, eu mudei. Não há como supor se as coisas seriam melhores ou piores.

Sendo assim, pairam no ar dentre outras as seguintes questões: por que as pessoas se apegam ao futuro, vivendo essa ilusão? Como não ser seduzido pelo futuro se o presente às vezes é repleto de problemas?

É aqui que a importância de um apoio terapêutico da área de psicologia ou neuropsicologia se mostra com clareza. Seja participando de grupos de apoio, seja por meio de sessões individuais, você tem que procurar ajuda profissional qualificada.

Mas como fazer essa mudança de viver o futuro para viver o presente? Como administrar essa relação com o futuro?

Inicialmente excluindo de nossa análise a variável “sorte” que tanto alimenta os sonhos dos apostadores de loteria que às vésperas dos sorteios gastam intermináveis horas especulando sobre o que fariam se fossem o sortudo da vez. Nosso interesse é a complexa rede de influências que faz dos transtornos do humor (depressão, apatia e ansiedade) um comprometimento importante causado pela DP.

Você pode se refugiar no futuro ou no passado, imaginando soluções diversas para sua vida, mas isso não resolverá os seus problemas, especialmente se você não souber lidar com frustrações. Mas por termos a falsa impressão de controle sobre o passado e o futuro, passamos a fugir frequentemente para os seus espaços, abandonando o tempo presente, quando a vida acontece.

Faça uma autoavaliação em função do que vimos e procure identificar seus pontos fracos em relação à ansiedade, ao seu grau de preocupação com o futuro e a sua capacidade de viver o presente. Converse com seus companheiros de DP, com seu terapeuta e nos grupos de que participa. Você só tem a ganhar com isso!

Para não tornar esse texto muito longo, vamos dar continuidade a este tema com o próximo texto: “Viver aqui e agora”. Espero você lá.

Finalizando, se você quer ler mais sobre esse assunto, recomendo os seguintes links:

https://vidasimples.co/colunistas/liberte-se-do-passado-e-do-futuro-e-viva-no-presente/

https://clinicadepsicologianodari.com.br/post/preocupacao-excessiva/

https://www.vittude.com/blog/ataque-de-panico/